Confiança de Troino celebra centenário de tradição

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A Mercearia Confiança de Troino, um museu vivo e dos mais tradicionais espaços do concelho, como salientou a vice-presidente do município, Maria do Carmo Tiago, comemorou no dia 15 os cem anos, no dia em recebeu a Medalha de Honra da Cidade.

O centenário foi celebrado, durante a tarde, com o lançamento de um livro comemorativo da efeméride, da autoria do atual proprietário, Eduardo Silva, filho dos fundadores da mercearia, César Figueiredo da Silva e Maria Helena Machado da Silva, tendo a vice-presidente da Câmara Municipal de Setúbal frisado que estes mereciam a obra, “pela vida que tiveram ao serviço da comunidade” do tradicional Bairro de Troino.

Maria do Carmo Tiago salientou que, “ao longo de décadas”, a Mercearia Confiança de Troino foi “um ponto de encontro da população do bairro, numa época em que as habitações não tinham frigoríficos e, por isso, era necessário ir diariamente à loja, que assim se tornava um espaço fundamental” na vida da comunidade do Bairro de Troino.

“A Mercearia Confiança de Troino conta-nos uma parte importante da história deste bairro e desta cidade e queremos que continue a contar por muitos e muitos anos. Vamos preservar com carinho este património, que é de todos. Senhor Eduardo Silva, da parte do município de Setúbal pode contar com todo o nosso apoio para perpetuar a história deste espaço único na cidade”, afirmou.

A autarca recordou que, há 100 anos, a população do Bairro de Troino era constituída por “pessoas de origem modesta e habituadas ao trabalho árduo e à luta”, principalmente operários e pescadores, “muitos deles oriundos do Algarve, que vinham para Setúbal para trabalhar na pesca do cerco da sardinha e nas fábricas conserveiras”.

A mercearia, agora uma loja de produtos regionais e uma mercearia pedagógica que valoriza “a importância que teve no dia a dia da comunidade do Bairro de Troino”, foi fundada em 1926 por César Figueiredo da Silva, um beirão nascido na aldeia de Monte Fundeiro, no distrito de Castelo Branco, e que veio para Setúbal com 13 anos, e pela mulher, a setubalense Maria Helena Machado da Silva.

Hoje, como considerou Maria do Carmo Tiago, o estabelecimento “é um testemunho do caráter do seu fundador, um homem que ficou conhecido pela vontade, resiliência e sentido de trabalho, além de ser um exemplo de honestidade e lealdade”, e que, “ao longo de 57 anos”, serviu clientes do bairro e das zonas rurais vizinhas da cidade, “sendo, além de comerciante, um conselheiro e uma figura de confiança”.

Os fundadores trespassaram a mercearia em 1983 e esta continuou a funcionar durante mais alguns anos até encerrar, tendo então o filho decidido recuperá-la para a família e “preservar a sua configuração original, através de um cuidadoso processo de restauro”.

Em 15 de setembro de 2015, há precisamente 11 anos, reabriu através de uma parceria com a Câmara Municipal que “a transformou num espaço de memória, de divulgação do património e da identidade de Setúbal e de promoção dos produtos regionais”, tornando-se “um verdadeiro museu vivo”, com móveis, utensílios e equipamentos da época da fundação.

Atualmente, a Câmara Municipal desenvolve no espaço várias iniciativas regulares, como um projeto lúdico-pedagógico com a comunidade escolar e as Tardes à Merceeiro, nas quais, uma vez por mês durante o verão, é possível relembrar os tempos da mercearia e degustar produtos regionais ao som de música ao vivo.

Eduardo Silva manifestou aos filhos e netos “confiança no futuro da Confiança de Troino”, agradeceu a presença da vice-presidente do município na cerimónia e reiterou a gratidão pela condecoração da Mercearia Confiança de Troino com a Medalha de Honra da Cidade, na Classe Comércio e Serviços, recebida de manhã na sessão solene do Dia de Bocage e da Cidade, realizada no Fórum Municipal Luísa Todi.

“O projeto desta mercearia foi desde logo acarinhado pela presidente da Câmara Municipal, doutora Dores Meira”, recordou, agradecendo ainda “a colaboração permanente do município na gestão da Mercearia Confiança de Troino”.

O historiador Diogo Ferreira, que colaborou na edição do livro “Mercearia Confiança de Troino – 100 Anos de História”, afirmou que esta obra e a mercearia são exemplos “daquilo que [o historiador] Oliveira Martins dizia, no século XIX, ser o amor inteligente à terra, o patriotismo local que muitas vezes simbolizou o século XIX português, com muitos aficionados pelos locais e pelas comunidades”.

Depois de considerar Eduardo Silva, engenheiro de formação, “um herdeiro destes pensadores”, afirmou que o livro apresenta “grande pormenor histórico, principalmente porque não se fecha exclusivamente no âmbito da história” da mercearia e de quem percorreu aqueles espaços, mas também relata “o que é que acompanhou o país e a cidade ao longo da cronologia deste centenário”.

No livro, Eduardo Silva presta homenagem aos pais, razão pela qual Diogo Ferreira considerou no autor “um exemplo de respeito, de admiração e de perpetuação da memória de quem tanto se sacrificou para que ele pudesse ter estudado no ensino superior, num período em que era extremamente difícil ter acesso à universidade”.

O investigador da história da cidade António Cunha Bento fez uma breve abordagem sobre mundivivência da zona da Fonte Nova, dando alguns exemplos de estabelecimentos comerciais que foram contemporâneos da Mercearia Confiança de Troino.

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