Organizado por uma comissão de festas e pela Paróquia da Anunciada, com diversos apoios, incluindo da Câmara Municipal, o programa da edição deste ano do Novo Círio de Nossa Senhora da Arrábida foi apresentado no dia 2 de julho no rio Sado, a bordo da embarcação de pesca “Cefalópode”, que nos últimos anos tem transportado a imagem da santa no cortejo marítimo, de ida e volta, entre Setúbal e o Portinho da Arrábida.
Valter Canas, membro da organização do Novo Círio de Nossa Senhora da Arrábida, salientou que esta é “uma manifestação religiosa, cultural e comunitária que ocorre em Setúbal desde 1892”, sendo “um património vivo onde a espiritualidade se encontra com a cultura popular, onde o mar e a serra se unem numa só celebração, perpetuado ano após ano pelos pescadores e habitantes da região”.
Recordou que o círio “nasceu do coração e da devoção do povo como expressão de gratidão e de promessa” e disse que o programa da edição deste ano une “devoção, convívio e celebração”.
O padre Francisco Mendes, pároco da Anunciada, afirmou que estes são “momentos celebrativos” em que “se agradecem as graças que se recebem” e em que “alguém, também com alguma aflição, as volta a apresentar de novo”, o que “ano após ano marca a vida” da comunidade.
“Sabemos que a maior parte dos círios nasceu por causa de um voto coletivo, numa aflição grande. Sabemos que alguns nasceram por causa de problemas que existiram relacionados com pestes, com grandes epidemias e com grandes aflições, outros com terremotos, outros com pragas na agricultura, outros provavelmente com problemas na pesca e com fomes e carestias. Nasceram todos assim”, referiu.
O diretor-geral da Setúbal Bay – Associação Baía de Setúbal, Rui Canas, considerou que “a baía fica muito mais rica com estas festividades”, que são “muito importantes porque marcam a identidade de Setúbal” e decorrem em vários momentos, quer em terra, quer na água.
“Esta foi a principal manifestação de fé marítima de Setúbal. Depois, por contingências que não vale a pena agora relembrar, foi perdendo algum ‘gás’, mas em 2015 conseguimos trazer novamente a comunidade piscatória para a festa”, lembrou, notando que, tradicionalmente, esta era uma celebração das pessoas que viviam da pesca do cerco e residiam na freguesia da Anunciada, na Baixa de Setúbal.
Rui Canas exortou a comunidade a “continuar a preservar as tradições”, mas defendeu que se procure “adaptar a festividade” aos tempos e à realidade atuais, “porque sem essa visão as coisas morrem”, considerando que, se “o mundo evolui e a situação é diferente, os acontecimentos também têm de acompanhar” os novos paradigmas.
Em representação da Câmara Municipal de Setúbal, Alexandra Manata, do Gabinete do Mar e das Pescas da autarquia, deu os parabéns à comissão organizadora do Novo Círio de Nossa Senhora da Arrábida e agradeceu “a devoção e a entrega dos pescadores e da comunidade piscatória” de Setúbal.
Alexandra Manata disse que, ouvidos os pescadores, foi decidido “voltar a fazer aquilo que anteriormente havia”, nomeadamente uma procissão com a imagem pela praia do Creiro no dia 11, um momento que “enriquece” o programa das festividades e que serve “para as pessoas sentirem a imagem e fazerem parte desse dessa grande cerimónia junto da comunidade piscatória, da sua família”.
Carlos Branco, do executivo da União das Freguesias de Setúbal, reconheceu o trabalho que tem sido feito para que as festividades continuem a realizar-se e agradeceu ao padre Francisco Mendes o desafio lançado, porque “a comunidade piscatória está mais reduzida, mas a fé está mais aumentada” devido aos “problemas mundiais de guerras e de desencontros”.
PROGRAMA
O programa do Novo Círio de Nossa Senhora da Arrábida tem início em 4 de julho, com a quarta edição do espetáculo “Fado em Oração”, a partir das 21h30 na Igreja da Anunciada, onde a fadista Susana Martins canta “temas das gentes do mar”, acompanhada de Rui do Cabo, na guitarra portuguesa, e Albano Almeida, na viola de fado.
“São os temas de devoção, acompanhados à guitarra e à viola. Convido todos a estarem presentes no próximo dia 4 e esperamos que estas festividades continuem, que continuem a aliar a cultura a este tipo de festas e que se perpetue durante muitos anos”, referiu Susana Martins, antes de cantar o hino do círio à capela.
Nos dias 7 e 8 é recitado o terço, às 17h30, em 9 de julho há um “Terço Solene” às 20h45, no Monumento ao Pescador, junto da Praia da Saúde, com cânticos pelo tenor João Mendonza, e no dia 10 realiza-se uma missa de sufrágio pelos sócios da comissão de festas falecidos, às 18h30, na Igreja da Anunciada.
Em 11 de julho, sábado, tem lugar o círio marítimo para o Portinho da Arrábida, com saída da Doca dos Pescadores às 08h00, seguindo-se a procissão até à Praia do Creiro, onde tem lugar um almoço-convívio da comunidade piscatória para o qual cada um leva farnel.
No dia 12, as embarcações engalanadas saem às 08h00 da Doca dos Pescadores para novo círio marítimo rumo ao Portinho da Arrábida, seguido de transbordo para o Convento da Arrábida – local para a missa, às 11h30, seguida de procissão e almoço –, realizando-se depois o círio para Setúbal, onde a chegada está prevista para as 19h00, havendo, então, nova procissão para a Igreja da Anunciada.


