Um livro de Manuel Duran Clemente sobre acontecimentos em torno do 25 de Abril e no período que se seguiu foi apresentado no dia 5 de outubro, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, numa sessão com a participação do presidente da Câmara Municipal de Setúbal, André Martins.
“As crónicas e os relatos dos acontecimentos que compõem este livro são a melhor prova de resistência numa altura em que há quem queira regressar a tempos sombrios da nossa memória coletiva”, disse André Martins na apresentação de “Crónicas de um Insubmisso”, que resulta de uma compilação de fragmentos das memórias de Duran Clemente, um dos membros do Movimento dos Capitães.
O autarca considera que “é tranquilizador saber que ainda há homens como Duran Clemente, que inspiram gentes de novas gerações a andarem direitas, sem nunca se curvarem”, num tempo em que se assiste “com cada vez maior intensidade e estrondo à renúncia oportunista a princípios”.
André Martins considera que nos dias de hoje “há uma grande pressão” para se “aceitar a conformidade e abandonar a insubmissão”, mas ressalva que o livro de Duran Clemente é a prova de que é possível resistir.
“Este é o testemunho insubmisso de um militar de Abril, que sempre andou direito, que enquanto houver estrada para andar não vai parar. Por isso, é tão bom ter aqui hoje o insubmisso Duran Clemente, pelo exemplo que deu e pelo exemplo que continua a dar pelos que não se curvam.”
Em “Crónicas de um Insubmisso”, Duran Clemente relata histórias de várias vivências, desde a infância e juventude passadas em Penamacor, a testemunhos relacionados com a Revolução de 25 de Abril de 1974.
“Este livro é uma forma de comemorar os 50 anos do 25 de Abril. A essência da maioria destas crónicas resulta da minha experiência de vida, da minha infância entre o meio urbano e o meio rural e a vivência na Escola Secundária Militar Pupilos do Exército. A quinta onde vivi e a escola foram as minhas primeiras universidades”.
Duran Clemente, que foi “incentivado por amigos de longa data, alguns com mais de 60 anos de lutas comuns”, a colocar as suas histórias em livro, pretendeu deixar neste livro “as memórias das lutas antifascistas e anticolonialistas de muitos portugueses, civis e militares, para jamais serem esquecidas”.
O autor espera que este livro “preencha as omissões que ofuscam a verdade histórica” e que contribua para melhorar o conhecimento de um período que “pôs fim a uma ditadura repressiva e asfixiante e a uma guerra colonial que ceifou a juventude portuguesa e obteve várias conquistas, entre as quais o Poder Local Democrático”.
A sessão literária de apresentação de “Crónicas de um Insubmisso” foi conduzida pelo escritor Domingos Lobo que sublinhou a importância dos testemunhos escritos por “um homem íntegro e insubmisso” e “um dos mais ilustres obreiros da Revolução de Abril” para perpetuar a memória “dessa aventura prodigiosa que transformou a realidade do país”.
A obra inclui cinco capítulos em que Duran Clemente descreve acontecimentos como o momento histórico do dia 25 de Abril de 1974 e a mobilização para a Guiné julho de 1973.
O autor lembra também momentos de glória, como a presença na vigília da Capela do Rato, na viragem do ano de 1972 para 1973, e a participação no II Congresso da Oposição Democrática, reunido em Aveiro em abril de 1973, e esclarece o que se passou no 25 de novembro e os incómodos causados pela então 5.ª Divisão.
O livro, com 254 páginas, da editora Modocromia, possuiu um conjunto de anexos documentais, como artigos escritos para a comunicação social entre 1975 e 2021.
Manuel Duran Clemente, nascido em Almada, em 28 de junho de 1942, foi um dos capitães da génese clandestina do MFA na Guiné, eleito para a 1.ª Comissão do Movimento de Capitães, em 1973, assumindo-se como um dos líderes do Movimento dos Capitães, na Revolução de 25 de Abril de 1974, com a participação na organização da defesa da sede do Governo, em Lisboa, onde enfrentou as tropas leais ao regime.
Foi autarca na Câmara Municipal de Lisboa e assessor na Câmara do Seixal, onde administrou diversas empresas municipais desse concelho.
Nos últimos anos, Duran Clemente tem sido homenageado e condecorado por diversas entidades pelo papel na Revolução de Abril e pela luta em defesa dos trabalhadores e do povo.
Em 2021, foi um dos 26 militares do 25 de Abril que o Presidente da República condecorou com a Ordem da Liberdade, Grau de Grande-Oficial.


