“A tecnologia deve estar ao serviço da educação. Nunca a educação ao serviço da tecnologia”, afirmou a vice-presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria do Carmo Tiago, na abertura do encontro, realizado no Fórum Municipal Luísa Todi.
Subordinada ao tema “Aprender num turbilhão: transformar a escola em tempo de mudança”, a conferência, organizada pela Câmara Municipal de Setúbal, reúne especialistas, investigadores, professores, técnicos e outros elementos da comunidade educativa para refletir sobre os principais desafios que atualmente se colocam ao ensino.
Na intervenção de abertura, Maria do Carmo Tiago apontou a inteligência artificial como um dos exemplos mais evidentes das transformações em curso, salientando as oportunidades proporcionadas pela tecnologia, mas também os riscos associados à criação de novas desigualdades.
“Uma ferramenta que pode abrir portas para alguns não pode transformar-se numa nova barreira para outros”, vincou.
A vice-presidente defendeu que a transformação da escola não pode significar o abandono dos princípios fundamentais da Educação.
“Não podemos perder a escola como espaço de conhecimento. Não podemos perder a escola como espaço de igualdade de oportunidades. Não podemos perder a escola como espaço de encontro, de cidadania e de construção de uma sociedade mais justa.”
Num contexto marcado por uma crescente diversidade cultural, social, económica, familiar e individual, Maria do Carmo Tiago salientou igualmente a importância de garantir uma escola inclusiva e capaz de responder às necessidades de todas as crianças e jovens.
“Não basta garantir que todas as crianças estão na escola. Temos de garantir que todas têm condições para aprender na escola”, afirmou.
A autarca defendeu ainda uma visão da Educação que ultrapassa os limites físicos dos estabelecimentos de ensino e envolve toda a comunidade, numa perspetiva de Setúbal enquanto Cidade Educadora.
“A educação acontece na escola, mas acontece também nas bibliotecas, nos museus, nos equipamentos desportivos e culturais, nas associações, nas famílias, nos espaços públicos e nas relações que estabelecemos enquanto comunidade.”
Maria do Carmo Tiago sublinhou, neste âmbito, a necessidade de reforçar redes de cooperação entre escolas, instituições de ensino superior, famílias, autarquias e comunidades.
“Não há cidade educadora sem escolas fortes. E não há escolas fortes sem uma comunidade que as acompanhe”, afirmou.
A vice-presidente destacou igualmente os investimentos realizados e previstos no parque escolar do concelho, enquadrando-os na aposta municipal na melhoria das condições de aprendizagem e no reforço da inclusão.
Entre as respostas salientadas está o Centro Escolar Barbosa du Bocage, com oito salas de 1.º ciclo e quatro de educação pré-escolar, uma unidade de ensino estruturado e uma sala Snoezelen.
“Não teremos apenas mais lugares nas escolas, teremos melhores respostas nas escolas”, afirmou Maria do Carmo Tiago, acrescentando que o objetivo passa por garantir que cada criança tenha condições para aprender de acordo com as características e necessidades individuais.
A autarca recordou ainda que terão início, em breve, obras de requalificação profunda nas escolas básicas Barbosa du Bocage e de Aranguez, na Escola Secundária du Bocage e na Escola Básica de Azeitão, que passará a integrar também o ensino secundário.
“Investir numa escola é investir numa comunidade”, salientou, defendendo que a qualificação dos estabelecimentos de ensino tem igualmente impacte no território envolvente.
A relação entre escola, cidade e comunidade esteve também no centro da palestra “Da Escola à Cidade Educadora: construir comunidades que aprendem”, apresentada por João Couvaneiro, diretor do Departamento de Inovação Pedagógica e e-Learning da Egas Moniz School of Health & Science.
O especialista defendeu que o sistema educativo é uma realidade em permanente construção, que deve acompanhar as mudanças da sociedade e estar, em primeiro lugar, ao serviço dos alunos e da comunidade.
João Couvaneiro destacou igualmente a inclusão como elemento indissociável da Educação.
“Se não estamos a falar de inclusão, não estamos a falar de educação”, afirmou.
O orador assinalou que uma criança de 12 anos passa entre 800 e mil horas na escola, mas cerca de sete mil fora dela, para defender que as oportunidades de aprendizagem não podem ficar limitadas à sala de aula.
“Educar não é uma responsabilidade exclusiva da escola. A educação não acontece apenas dentro da sala de aula”, afirmou.
A aprendizagem, acrescentou, ocorre igualmente em casa, na rua, nas bibliotecas, museus, clubes desportivos, jardins, centros de saúde, comércio, associações e espaços digitais, o que exige uma maior articulação entre escola e comunidade.
“A escola é fundamental, mas é apenas um dos nós desta rede que é maior”, referiu João Couvaneiro, que atribuiu aos municípios um papel relevante na articulação entre estes diferentes contextos educativos.
O especialista defendeu uma escola aberta à comunidade, capaz de trabalhar sobre problemas reais, promover a participação dos alunos e desenvolver parcerias com o território, valorizando áreas como a história e memória locais, cultura, identidade, ambiente, cidadania, economia, arte e património.
“As mudanças profundas que temos de introduzir na escola e na comunidade não se fazem de cima para baixo, fazem-se de dentro para fora”, concluiu.
Os trabalhos da XII Conferência Anual de Educação prosseguiram durante a manhã com o painel “O estado da educação em Portugal: conquistas, tendências e desafios”, dedicado à evolução do sistema educativo, à escola pública e ao impacte da inteligência artificial no ensino.
Daniel Carvalho, secretário-geral do think tank EDULOG, da Fundação Belmiro de Azevedo, apresentou “Balanço Anual da Educação 2026: indicadores e tendências do sistema educativo”, seguindo-se Vítor Teodoro, professor auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, com “A Escola Pública perante os desafios do século XXI: políticas, currículo e equidade”.
Nuno Dorotea, professor auxiliar e investigador do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, completou o painel com uma intervenção sobre “A Inteligência Artificial na Educação: desafios, oportunidades e implicações para o ensino”.
O programa da tarde incluiu o painel “Inovar para aprender: experiências que transformam a escola”, com intervenções de Mariana Pinto, professora adjunta da Universidade Politécnica de Setúbal, sobre “IA e prática docente: explorar potencialidades, reconhecer limites, construir aprendizagens”, Ana Dantas, da Fundação Pedro Queiroz Pereira, sobre “Escolas Tumo”, e Gisélia Piteira, diretora do Agrupamento de Escolas de Azeitão, sobre “Organização escolar em semestres”.
António Nóvoa, professor emérito e ex-reitor da Universidade de Lisboa, apresentou ainda “Viagem por Escolas de Portugal”, numa conferência em que os painéis foram moderados pela locutora de rádio Helena Almeida.
A conferência terminou com uma sessão de encerramento com a reitora da Universidade Politécnica de Setúbal, Ângela Lemos, e com o Diretor do Departamento Municipal de Educação e Bibliotecas, Carlos Cunha.




