Câmara homenageia Carrilho da Graça

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A Câmara Municipal homenageou em 31 de maio João Luís Carrilho da Graça, o arquiteto responsável pelo projeto de reabilitação do Convento de Jesus, cujo trabalho o presidente da autarquia, André Martins, qualificou como um hino à sensibilidade.

A Câmara Municipal homenageou em 31 de maio João Luís Carrilho da Graça, o arquiteto responsável pelo projeto de reabilitação do Convento de Jesus, cujo trabalho o presidente da autarquia, André Martins, qualificou como um hino à sensibilidade.

“O trabalho de Carrilho da Graça é um hino à sensibilidade, ao rigor e à mestria com que se deve intervir no edificado histórico”, disse o presidente da Câmara na cerimónia realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho, sublinhando que a reabilitação do Convento de Jesus é “um exemplo de como a arquitetura pode valorizar o património e contribuir para o desenvolvimento cultural e turístico de uma cidade”.

Iniciada em dezembro de 2012 e concluída há seis meses, a reabilitação do Convento de Jesus, classificado como Monumento de Interesse Nacional, foi realizada em três fases, representou um investimento total próximo dos 10 milhões de euros e foi considerada pelo autarca “um compromisso sério do município de Setúbal com a preservação do seu património”.

Carrilho da Graça, nascido em Portalegre, em 1952, e licenciado pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, em 1977, venceu o concurso lançado para a reabilitação do edifício e reinstalação do Museu de Setúbal, no qual foram atribuídos mais dois prémios e três menções honrosas, devido à qualidade das propostas apresentadas por um total de 17 concorrentes.

“A abordagem de Carrilho da Graça ao Convento de Jesus revela o seu profundo respeito pelo edifício original, equilibrando a preservação da autenticidade com uma linguagem arquitetónica que permite a sua fruição contemporânea”, disse André Martins. “A Câmara Municipal e os setubalenses agradecem a sua mestria e o serviço inestimável que prestou à nossa cidade e ao país”.

O autarca afirmou que o nome do arquiteto “ficará para sempre gravado na pedra do monumento setubalense que ajudou a renascer”, com uma “magnífica obra” que “valorizou o Convento de Jesus, sempre com profundo respeito pela visão de Mestre Boitaca, e devolveu aos setubalenses o orgulho” pelo maior monumento da cidade.

Após lembrar que o Convento de Jesus é “um monumento de excecional valor histórico e artístico, ícone do estilo manuelino em Portugal, cuja construção remonta ao final do século XV”, notou que, “durante décadas”, o edifício “sofreu a degradação do tempo causada pela incúria de quem dele deveria cuidar”, até encontrar em Carrilho da Graça “o arquiteto capaz de lhe devolver a dignidade e a vitalidade” dignas da sua história.

“Há 23 anos, quando chegámos a esta câmara municipal, encontrámos um panorama desolador aos mais diversos níveis. O Convento de Jesus era, a todos os títulos, o mais marcante exemplo do desleixo a que tinha chegado a administração da cidade e do concelho. De entre outras, elegemos, então, a requalificação deste monumento como uma das prioridades”, referiu.

O presidente da Câmara frisou, no entanto, que o processo até à conclusão da reabilitação foi “longo”, com “muitas reuniões, muita insistência pública, muitos projetos, muita pressão junto das entidades do Estado que tinham a responsabilidade de manter a dignidade” do monumento.

A encerrar a sessão, Carrilho da Graça admitiu ter ficado emocionado com os vários discursos que acabara de ouvir e agradeceu aos técnicos municipais, do seu atelier – onde diz que trabalha num “processo de coautoria” – e de outras áreas que com ele colaboraram no projeto ao longo de mais de duas décadas.

“Impressionou-me imenso, por um lado, a dificuldade e o esforço, mas também a persistência com que a Câmara Municipal quis recuperar o edifício, colocando os meios necessários à disposição”, afirmou. “Foi um processo muito longo, com alguns percalços, mas lutei imenso para dar continuidade e chegar ao fim deste projeto”.

Carrilho da Graça salientou a operação, que classificou como “completamente invisível”, de rebaixar o piso do claustro em 90 centímetros, permitindo, assim, fazer uma aproximação “ao que era o convento no seu início”, no final do século XV. “Ao fim de 28 anos pode ser que me sinta finalmente liberto desta obra. Acho que o resultado é muito positivo”.

Fernando António Batista Pereira, responsável pela valorização científica e museológica do Convento de Jesus, onde está instalado o Museu de Setúbal, declarou que trabalha há 30 anos com Carrilho da Graça em vários museus e espaços museológicos num “diálogo quase perfeito” e em “completa sintonia”.

Recordou que o projeto Europa Nostra tinha considerado o Convento de Jesus um dos monumentos europeus em maior perigo pelo estado de degradação e notou que “reabilitar o edifício e reinstalar a narrativa museológica do Museu de Setúbal” era “um desafio imenso”, conseguido com uma “forma muito subtil de enquadramento” da história do convento, da história da cidade e da história da arte.

Paula Torgal, vice-presidente do conselho diretivo nacional da Ordem dos Arquitetos, afirmou que “Setúbal é uma cidade que se fez moderna dialogando com o passado” e que a reabilitação do convento é uma obra que “traduz sensibilidade” do lugar e do tempo, além de uma “identidade magistral”.

Ao destacar a sua “visão pioneira”, lembrou que Carrilho da Graça, que se preocupa em incentivar “um processo incessante para a inovação”, deu origem ao que muitos chamam “Escola de Lisboa” e considerou que a obra do convento “é um exemplo de como é possível preservar os elementos patrimoniais numa narrativa urbana”.

Marta Sequeira, arquiteta, investigadora e curadora de diversas exposições sobre João Luís Carrilho da Graça, afirmou que o projeto da reabilitação do convento significa “o que é intervir no território com responsabilidade, rigor e consciência do lugar”.

Salientou ainda que o homenageado é “um arquiteto cuja obra se tornou decisiva” na arquitetura contemporânea portuguesa, sendo nas “últimas décadas” uma “referência incontornável na formação” de arquitetos portugueses, alguns premiados internacionalmente.

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