Setúbal defende escola capaz de inovar sem deixar ninguém para trás

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A necessidade de transformar a escola perante as rápidas mudanças sociais e tecnológicas, sem comprometer a inclusão, a igualdade de oportunidades e o pensamento crítico, marcou na manhã de dia 8 a abertura da XII Conferência Anual de Educação de Setúbal.

“A tecnologia deve estar ao serviço da educação. Nunca a educação ao serviço da tecnologia”, afirmou a vice-presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria do Carmo Tiago, na abertura do encontro, que decorre até ao final do dia no Fórum Municipal Luísa Todi.

Subordinada ao tema “Aprender num turbilhão: transformar a escola em tempo de mudança”, a conferência, organizada pela Câmara Municipal de Setúbal, reúne especialistas, investigadores, professores, técnicos e outros elementos da comunidade educativa para refletir sobre os principais desafios que atualmente se colocam ao ensino.

Na intervenção de abertura, Maria do Carmo Tiago apontou a inteligência artificial como um dos exemplos mais evidentes das transformações em curso, salientando as oportunidades proporcionadas pela tecnologia, mas também os riscos associados à criação de novas desigualdades.

“Uma ferramenta que pode abrir portas para alguns não pode transformar-se numa nova barreira para outros”, vincou.

A vice-presidente defendeu que a transformação da escola não pode significar o abandono dos princípios fundamentais da Educação.

“Não podemos perder a escola como espaço de conhecimento. Não podemos perder a escola como espaço de igualdade de oportunidades. Não podemos perder a escola como espaço de encontro, de cidadania e de construção de uma sociedade mais justa.”

Num contexto marcado por uma crescente diversidade cultural, social, económica, familiar e individual, Maria do Carmo Tiago salientou igualmente a importância de garantir uma escola inclusiva e capaz de responder às necessidades de todas as crianças e jovens.

“Não basta garantir que todas as crianças estão na escola. Temos de garantir que todas têm condições para aprender na escola”, afirmou.

A autarca defendeu ainda uma visão da Educação que ultrapassa os limites físicos dos estabelecimentos de ensino e envolve toda a comunidade, numa perspetiva de Setúbal enquanto Cidade Educadora.

“A educação acontece na escola, mas acontece também nas bibliotecas, nos museus, nos equipamentos desportivos e culturais, nas associações, nas famílias, nos espaços públicos e nas relações que estabelecemos enquanto comunidade.”

Maria do Carmo Tiago sublinhou, neste âmbito, a necessidade de reforçar redes de cooperação entre escolas, instituições de ensino superior, famílias, autarquias e comunidades.

“Não há cidade educadora sem escolas fortes. E não há escolas fortes sem uma comunidade que as acompanhe”, afirmou.

A vice-presidente destacou igualmente os investimentos realizados e previstos no parque escolar do concelho, enquadrando-os na aposta municipal na melhoria das condições de aprendizagem e no reforço da inclusão.

Entre as respostas salientadas está o Centro Escolar Barbosa du Bocage, com oito salas de 1.º ciclo e quatro de educação pré-escolar, uma unidade de ensino estruturado e uma sala Snoezelen.

“Não teremos apenas mais lugares nas escolas, teremos melhores respostas nas escolas”, afirmou Maria do Carmo Tiago, acrescentando que o objetivo passa por garantir que cada criança tenha condições para aprender de acordo com as características e necessidades individuais.

A autarca recordou ainda que terão início, em breve, obras de requalificação profunda nas escolas básicas Barbosa du Bocage e de Aranguez, na Escola Secundária du Bocage e na Escola Básica de Azeitão, que passará a integrar também o ensino secundário.

“Investir numa escola é investir numa comunidade”, salientou, defendendo que a qualificação dos estabelecimentos de ensino tem igualmente impacte no território envolvente.

A relação entre escola, cidade e comunidade esteve também no centro da palestra “Da Escola à Cidade Educadora: construir comunidades que aprendem”, apresentada por João Couvaneiro, diretor do Departamento de Inovação Pedagógica e e-Learning da Egas Moniz School of Health & Science.

O especialista defendeu que o sistema educativo é uma realidade em permanente construção, que deve acompanhar as mudanças da sociedade e estar, em primeiro lugar, ao serviço dos alunos e da comunidade.

João Couvaneiro destacou igualmente a inclusão como elemento indissociável da Educação.

“Se não estamos a falar de inclusão, não estamos a falar de educação”, afirmou.

O orador assinalou que uma criança de 12 anos passa entre 800 e mil horas na escola, mas cerca de sete mil fora dela, para defender que as oportunidades de aprendizagem não podem ficar limitadas à sala de aula.

“Educar não é uma responsabilidade exclusiva da escola. A educação não acontece apenas dentro da sala de aula”, afirmou.

A aprendizagem, acrescentou, ocorre igualmente em casa, na rua, nas bibliotecas, museus, clubes desportivos, jardins, centros de saúde, comércio, associações e espaços digitais, o que exige uma maior articulação entre escola e comunidade.

“A escola é fundamental, mas é apenas um dos nós desta rede que é maior”, referiu João Couvaneiro, que atribuiu aos municípios um papel relevante na articulação entre estes diferentes contextos educativos.

O especialista defendeu uma escola aberta à comunidade, capaz de trabalhar sobre problemas reais, promover a participação dos alunos e desenvolver parcerias com o território, valorizando áreas como a história e memória locais, cultura, identidade, ambiente, cidadania, economia, arte e património.

“As mudanças profundas que temos de introduzir na escola e na comunidade não se fazem de cima para baixo, fazem-se de dentro para fora”, concluiu.

Os trabalhos da XII Conferência Anual de Educação prosseguiram durante a manhã com o painel “O estado da educação em Portugal: conquistas, tendências e desafios”, dedicado à evolução do sistema educativo, à escola pública e ao impacte da inteligência artificial no ensino.

Daniel Carvalho, secretário-geral do think tank EDULOG, da Fundação Belmiro de Azevedo, apresentou “Balanço Anual da Educação 2026: indicadores e tendências do sistema educativo”, seguindo-se Vítor Teodoro, professor auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, com “A Escola Pública perante os desafios do século XXI: políticas, currículo e equidade”.

Nuno Dorotea, professor auxiliar e investigador do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, completou o painel com uma intervenção sobre “A Inteligência Artificial na Educação: desafios, oportunidades e implicações para o ensino”.

O programa da tarde inclui o painel “Inovar para aprender: experiências que transformam a escola”, com intervenções de Mariana Pinto, professora adjunta da Universidade Politécnica de Setúbal, sobre “IA e prática docente: explorar potencialidades, reconhecer limites, construir aprendizagens”, Ana Dantas, da Fundação Pedro Queiroz Pereira, sobre “Escolas Tumo”, e Gisélia Piteira, diretora do Agrupamento de Escolas de Azeitão, sobre “Organização escolar em semestres”.

António Nóvoa, professor emérito e ex-reitor da Universidade de Lisboa, apresenta ainda “Viagem por Escolas de Portugal”, numa conferência em que os painéis são moderados pela locutora de rádio Helena Almeida.

A conferência termina com uma sessão de encerramento a cargo da reitora Universidade Politécnica de Setúbal, Ângela Lemos, prevista para as 17h00.

Assista à XII Conferência Anual de Educação de Setúbal em direto nesta ligação.

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