O presidente da Câmara Municipal, André Martins, afirmou no dia 19 que o Dicionário de História de Setúbal é um antídoto contra o esquecimento, na apresentação da obra, editada pelo jornal O Setubalense nas comemorações dos seus 170 anos.
Na apresentação do primeiro volume da obra, realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o autarca agradeceu ao jornal O Setubalense e ao seu diretor, Francisco Alves Rito, pela edição, a Albérico Afonso Costa pela coordenação de “mais este precioso contributo para o conhecimento da história” da cidade “e daqueles que a fizeram” e a todos os 74 colaboradores que participaram no dicionário.
“[É] Uma iniciativa extraordinária que nos permite conhecer melhor a história da terra que escolhemos para viver, exatamente através de um melhor conhecimento da história de vida de muitos dos seus protagonistas”, disse.
André Martins sublinhou que, tal como afirma Albérico Afonso Costa no prefácio, o dicionário é “um instrumento de consulta que nos permite ultrapassar dúvidas e lança luzes sobre o que não sabemos”, sendo “um antídoto” contra o “esquecimento planificado” que o coordenador do livro diz marcar os tempos atuais.
“Mais: é um antídoto contra a mentira e as meias verdades que se normalizam nos discursos políticos que contaminam as conversas da rua, a mentira e as meias verdades que consomem com velocidade furiosa os pastos férteis das redes sociais e infetam até o discurso jornalístico”, notou, considerando “estranhos” os tempos em que “a extrema-direita violenta nas palavras e nos atos já está a meio caminho para novos fascismos”.
O presidente da Câmara agradeceu “a Albérico Afonso e a todos os que contribuíram para este dicionário e para fazer dele uma ferramenta de verdade contra o moderno obscurantismo”, bem como ao apresentador da obra, o jornalista Pedro Tadeu, que “voltou à cidade a que tantas vezes veio nos últimos três anos” para dar “um contributo fundamental” para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril em Setúbal.
“É dele a maravilhosa ideia de adotarmos como lema orientador dessas comemorações o ‘Venham Mais Vinte e Cincos’, diretamente adaptado da canção de José Afonso, outro nome que todos temos a certeza que dará a origem a uma rica entrada deste dicionário, que, agora, é tempo de levar para casa e folhear e ler avidamente. Muito obrigado”, concluiu.
O diretor do jornal O Setubalense, Francisco Alves Rito, agradeceu a todos os colaboradores do livro, bem como o patrocínio da APSS – Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra à sua impressão e o apoio da Câmara Municipal na compra de alguns exemplares e na cedência do Salão Nobre para a apresentação.
“Atrevo-me a dizer que O Setubalense é uma das marcas vivas mais antigas da cidade. É o jornal mais antigo de Portugal continental e o segundo do país, depois do Açoriano Oriental”, disse, afirmando que só o Club Setubalense e a Bolacha Piedade, ambos também criados em 1855, são tão antigos quanto o jornal, fundado em 1 de julho desse ano.
Depois de referir que o jornal é a principal fonte referida na generalidade das entradas do dicionário, que prevê ter outros dois volumes publicados em 2026 e 2027, Francisco Alves Rito agradeceu à Câmara Municipal, e a André Martins, por terem iniciado o processo de classificação de O Setubalense como sendo de interesse público municipal.
“Isso vai ser importante para preservar um património. Desde logo o arquivo do jornal, que é único e de todos nós, da nossa cidade, dos setubalenses, e tem de ser preservado e colocado ao alcance do público”, sublinhou.
Albérico Afonso Costa, o mentor e coordenador do dicionário, afirmou que este “não podia ser resultado de um trabalho individual”, razão pela qual chamou para com ele colaborarem “investigadores de várias gerações”, desde professores universitários e dos ensinos básico e secundário a jornalistas e profissionais de outras atividades.
“Durante muito tempo, a academia desvalorizou a história local enquanto objeto de estudo”, notou o historiador, afirmando que isso foi mudado pela “nova geração de investigadores”.
De acordo com o coordenador da obra, o Dicionário de História de Setúbal assume-se como “um instrumento de consulta e de alavanca para novas investigações”, com “utilidade nas escolas setubalenses” e tendo como “objetivo central” a partilha. “A cidade é de todos nós, a cidade é de todos os nomes”, salientou.
Ao fazer a apresentação do livro, o jornalista Pedro Tadeu disse que aprendeu “coisas interessantíssimas” sobre Setúbal só de folhear o primeiro volume, que vai das letras A a E, tem cerca de 450 páginas e 500 entradas, com fotografias “relevantes”, de áreas tão diferentes como a social, a política, a artística, a económica, a cultural, a desportiva, a das lutas operárias, a da resistência ao fascismo e a religiosa.
“O dicionário apresenta uma história abrangente da cidade, desde os tempos dos romanos até ao século XX”, referiu, assegurando que “preenche uma lacuna” com que muitas cidades portuguesas se debatem relativamente à preservação da história local.
Pedro Tadeu revelou que, com o livro, entre outras coisas, aprendeu que “no século XVII, graças à produção de sal, Setúbal tornou-se a cidade mais populosa de Portugal” e que mais tarde foi um centro da luta sindical e associativa e de resistência ao regime monárquico, sendo “conhecida como a Barcelona portuguesa” devido à importância dos movimentos anarquistas.
Recordou que o Círculo Cultural de Setúbal, fundado em 1969, tornou-se um “bastião da resistência ao fascismo” e destacou a importância de Setúbal nas lutas dos trabalhadores e pelo direito à habitação, após a revolução do 25 de Abril, em 1974.
“Ficamos a saber tanto da história de Setúbal com este excelente dicionário e ainda só vamos na letra E. Estou ansioso por saber qual vai ser o primeiro verbete da letra F. Excelente trabalho”, concluiu.
O presidente da APSS, Carlos Correia, manifestou-se “orgulhoso pelo patrocínio” de uma obra com “qualidade” e com “importância e relevância” para a cidade, facto que, como disse, era comprovado pela enchente registada no Salão Nobre dos Paços do Concelho, numa tarde de sábado de verão com bom tempo.
Segundo Carlos Correia, o dicionário é “uma obra de referência imprescindível para compreender” a história da cidade, que “resgata memórias” com “rigor e projeto de missão”. Por isso, agradeceu a Albérico Afonso Costa e à equipa de investigadores o “serviço inestimável” prestado “a cidade e às futuras gerações”






