Celebração de Fran Paxeco reforça identidade

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O presidente da Câmara Municipal, André Martins, afirmou em 9 de março que preservar a memória de Fran Paxeco contribui para manter a coesão da identidade de Setúbal, no encerramento das comemorações dos 150 anos do nascimento do ilustre setubalense.

O presidente da Câmara Municipal, André Martins, afirmou em 9 de março que preservar a memória de Fran Paxeco contribui para manter a coesão da identidade de Setúbal, no encerramento das comemorações dos 150 anos do nascimento do ilustre setubalense.

Na sessão solene realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho, o presidente da Câmara fez questão de se dirigir “a todas e a todos os que estiveram envolvidos nestas ações de preservação da memória” de Fran Paxeco – que qualificou como um “sábio sadino” e “um dos mais ilustres setubalenses” – e, “acima de tudo”, de preservação da “forte identidade” de Setúbal “enquanto antiga e coesa comunidade”.

No dia em que passavam 150 anos sobre o nascimento de Fran Paxeco, em 9 de março de 1874, o autarca salientou que, “uma vez mais”, era cumprido o “dever de preservar a história local e de valorizar” a identidade setubalense, recordando uma afirmação que proferiu em janeiro, na abertura da exposição sobre o homenageado que esteve patente na Galeria Municipal do 11.

“Uma terra com um passado riquíssimo feito por muitos homens e mulheres notáveis, feito também por muita gente anónima que, com o seu labor, construiu a grande cidade que somos hoje. Um passado riquíssimo que permite adivinhar um futuro ainda mais rico e promissor que vamos continuar a construir sempre com o saber coletivo de todos os que se empenham no progresso deste nosso chão comum”, referiu.

André Martins recordou que “Fran Paxeco destacou-se pela sua ação como jornalista, escritor, político, diplomata, professor ou investigador” e que, como reconhecimento “por ter elevado o nome de Setúbal”, foi atribuído o seu nome à Rua Direita, no Troino, tendo ainda sido condecorado pela Câmara Municipal com a medalha da cidade, em 2024.

“Uma vez mais, aqui estamos a recordar e a homenagear este importante setubalense, a quem temos de continuar a agradecer o legado que nos deixou”, disse, afirmando acreditar que, embora o nome de Fran Paxeco fosse “bem reconhecido” em Setúbal, “serão muitos mais os que agora conseguem identificar” a sua figura “entre os notáveis setubalenses” retratados no tríptico de Luciano dos Santos exposto no Salão Nobre.

O presidente da Câmara saudou o académico e empresário do Estado do Maranhão Carlos Gaspar, pela autoria do livro “O Senhor Fran Paxeco”, que oferece “uma visão brasileira de quem foi este setubalense”, e o investigador de história local António Cunha Bento, pela conferência intitulada “Fran Paxeco Revelado”, apresentada na sessão.

Agradeceu ainda a Rosa Machado, neta de Fran Paxeco, por ter sido uma “ativa protagonista desta homenagem”, ao ceder objetos pessoais do avô para a exposição sobre a sua vida e obra que esteve patente na Galeria Municipal do 11.

Carlos Gaspar, um filho de portugueses que já escreveu três livros sobre o intelectual setubalense, afirmou que Fran Paxeco foi “um homem que revolucionou, que transformou”, tendo como “maior obra” a ponte cultural que fez entre Portugal e o Brasil.

“É importante que as novas gerações não se esqueçam de que este grande homem e grande setubalense deve figurar na galeria dos grandes portugueses”, disse. “Fran Paxeco tinha uma capacidade de trabalho e uma inteligência fora do comum. Era uma figura envolvente sob o ponto de vista intelectual. Sabia várias línguas e entendia de tudo, de política, de filosofia. Era um homem altamente polémico porque sabia muito”.

António Cunha Bento abordou, na sua palestra, o percurso de Fran Paxeco através de traços biográficos recolhidos na sua obra publicada em livro e em recortes de jornais, recordando que ficou órfão aos 6 anos, com um irmão de 6 meses, e frequentou o ensino primário no antigo convento de São Francisco, dos Jesuítas, e o secundário na Casa Pia de Lisboa.

Como recordou, teve um primeiro contacto com o jornalismo na Gazeta Setubalense e aos 16 anos fundou um jornal pela primeira vez, o Elmano, antes de ingressar no serviço militar onde o seu republicanismo de pendor “revolucionário” se manifestou e chegou a ser preso “por insubordinação e ofensa por meio escrito a superior”.

Foi redator político em vários jornais, entrando em diversas polémicas, uma das quais, com o Rei D. Carlos, lhe valeu a abertura de um processo judicial que poderia traduzir-se numa pena de um mínimo de cinco anos de prisão, o que o levou, com 20 anos, a exilar-se no Brasil, onde chegou em 1895 com um nome falso.

Começou por fundar jornais no Rio de Janeiro e em Belém do Pará, alterando então o nome de Manuel Francisco Pacheco para Manuel Fran Paxeco, porque naquele Estado não podia haver dois comerciantes com o mesmo nome, tendo ainda residido em Manaus antes de se instalar em São Luís do Maranhão.

Em 1911 foi nomeado cônsul de Portugal no Maranhão, mas voltou ao país natal para ser secretário particular do Presidente da República Bernardino Machado entre 1916 e 1917. Acabou, no entanto, por regressar a São Luís e ali fundou a Faculdade de Direito do Maranhão, sendo em 1923 nomeado cidadão honorário daquela cidade do nordeste brasileiro, quase sobre a linha do Equador.

Foi depois cônsul no Pará (1924), mas teve alguns problemas no Brasil por não ser apoiante do golpe de Estado de 28 de maio de 1926, que instaurou a Segunda República em Portugal, que posteriormente daria lugar ao Estado Novo, sendo depois nomeado cônsul em Cardiff, no País de Gales (1928), e em Liverpool, Inglaterra (1933).

Regressou a Lisboa em 1935 e morreu em 17 de setembro de 1952, recebendo então várias homenagens no Brasil, nomeadamente em São Luís, onde há uma Praça Fran Paxeco, em Belém do Pará – cidade na qual o Grêmio Literário e Recreativo Português deu o seu nome a uma biblioteca que é “uma das maiores do Brasil não pertencentes ao Estado” –, no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde o seu nome foi dado a duas ruas.

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