O presidente da Câmara Municipal, André Martins, sublinhou em 31 de maio a relação dos pescadores com o movimento associativo, numa conferência realizada para celebrar os dias nacionais das coletividades e do pescador.
Realizada no Mercado da Conceição, situado entre dois bairros típicos setubalenses de pescadores, os bairros da Conceição e de Santos Nicolau, a conferência, organizada pela Câmara Municipal e pela Associação da Coletividades do Concelho de Setúbal (ACCSET), teve como tema o associativismo popular e a pesca local.
O evento teve igualmente o objetivo de comemorar os 100 anos da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD), que no sábado realizou o seu congresso do centenário no Fórum Municipal Luísa Todi.
André Martins, que esteve acompanhado pelos vereadores Carla Guerreiro, Carlos Rabaçal, Pedro Pina e Rita Carvalho e pelo presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião, Luís Matos, recordou que neste dia era feito o “reconhecimento do pescador” pela comunidade de Setúbal, “que também cresceu e enriqueceu pelo trabalho de muitos dos que se dedicam à pesca”, por vezes com o sacrifício da própria vida.
“Iam para o mar e deixavam em terra algo que era muito importante para eles, a família. Iam com a ideia de ir e voltar, mas muitos não voltavam”, recordou o presidente da Câmara. “Agradecemos ao movimento associativo por estar hoje aqui, porque muitas das organizações dos pescadores são também organizações associativas”.
André Martins salientou a necessidade de se “trabalhar no sentido de que os pescadores e a pesca continuem a ter um papel determinante em Setúbal”, frisando a importância da pesca na comunidade e na cultura setubalenses.
O autarca voltou a agradecer à CPCCRD pela escolha de Setúbal para o congresso do seu centenário e lembrou o papel desempenhado pelo movimento associativo “ao longo de muitos anos de luta, de resistência ao fascismo”, tendo depois do 25 de Abril continuado o trabalho para “dar melhores condições de vida e de bem-estar” às comunidades, através da promoção da cultura, do recreio e do desporto.
Ao abordar o tema “O centenário da CPCCRD e o Associativismo Popular”, o presidente da CPCCRD, João Bernardino, considerou que não era possível haver “uma ação mais feliz do que esta, que junta todos estes saberes, a autarquia, os pescadores e o movimento associativo”.
Afirmou que “o Poder Local é uma peça importante no trabalho” com a CPCCRD, “numa simbiose para fazer mais e melhor país”, e notou hoje que a confederação representa 35.500 coletividades de cultura, recreio e desporto e perto de 450 mil dirigentes associativos.
“Somos uma grande família, infelizmente pouco reconhecida pelos sucessivos governos”, disse, referindo que as coletividades trabalham com o objetivo de “tirar as pessoas do isolamento e elevar a consciência social” dos seus associados.
O presidente da Associação da Coletividades do Concelho de Setúbal (ACCSET), Nuno Soares, leu uma saudação desta entidade que classificava o movimento associativo como “uma das maiores redes sociais” em Portugal, contribuindo para a coesão social e para o bem-estar dos portugueses, e pedia ao Estado que ajude a salvaguardar as sedes das coletividades, muitas das quais são “históricas”.
O antropólogo e investigador Augusto Flor, conselheiro nacional da CPCCRD e seu ex-presidente, notou, ao falar sobre “O associativismo popular”, que a população de Setúbal tem “dois poderes com que sempre contou e continua a poder contar”, nomeadamente “o Poder Local democrático, que são as autarquias, e o poder local associativo, que são as coletividades e os clubes”.
Augusto Flor, que é dirigente associativo há 54 anos, sublinhou que “estes dois poderes resolvem muitos dos problemas que a sociedade tem no geral e que os vários governos não têm conseguido resolver” e manifestou a crença de que “o movimento associativo não vai acabar”.
Para justificar a afirmação, lembrou que há uma tradição de associativismo iniciada há 14 mil anos, então com o objetivo de garantir a reprodução da espécie, a alimentação, através da caça e da pesca, e a defesa. “Cem anos numa instituição é muito, mas nós estamos associados há 14 mil. É uma questão histórica, materialista e dialética”, disse.
Segundo Augusto Flor, o movimento associativo deve ser “agente da transformação social”, porque “através da cultura, do recreio e do desporto, é possível refletir de forma associativa, é possível mudar comportamentos, é possível mudar a sociedade”.
A socióloga Joana Iglésias Amorim, coautora do livro “Caminhos com História – Memórias dos Bairros dos Pescadores e do Grito do Povo”, abordou o tema “Os caminhos e memórias dos bairros pescadores no 25 de Abril e na atualidade” e a dirigente associativa Luísa Araújo falou sobre “O movimento associativo”.
A conferência contou ainda com a exibição do documentário “Fragmentos de uma vida por cima d’água” e com uma conversa da antropóloga e investigadora Vanessa Iglésias Amorim com Raquel Martins, antropóloga e responsável pelo Centro de Memórias do Museu do Trabalho Michel Giacometti, e com Armando Oliveira, presidente da Comissão de Festas de Nossa Senhora do Rosário de Troia e diretor nacional do Apostolado do Mar.





